A nova atualização do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama revela que a região Nordeste apresenta uma taxa de cobertura de mamografias de 22,6% no Brasil para a população-alvo, que compreende no estudo mulheres de 50 a 69 anos (em Outubro de 2025 o Ministério da Saúde ampliou a idade alvo mas o estudo considera o protocolo anterior para esta leitura). O patamar alcançado em 2025 está muito abaixo do mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de 70%, mas dentro da média nacional (22,1%).
A plataforma, atualizada anualmente utilizando fontes de dados públicos, é resultado de parceria entre o Instituto Natura e a Avon com o Observatório da Oncologia do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC) e o Instituto Protea. Coletados do Painel de Oncologia do Instituto Nacional de Câncer (INCA), os dados de 2025 mostram que o Maranhão apresentou a pior cobertura mamográfica do Nordeste no ano, com 12,9%, seguido de Ceará (17,8%) e Paraíba (17,8%).
Em contrapartida, Bahia e Piauí se destacam por estarem entre os estados com a maior cobertura do país, respondendo, respectivamente, por 28,8% e 32,4% dos exames realizados na população-alvo no último ano, valores ainda abaixo da metade do mínimo recomendado. Pernambuco registrou 20,5%, Sergipe ficou com 21,5%, Rio Grande do Norte com 24,3% e Alagoas com 26,0%. A baixa cobertura mamográfica aumenta as chances de um diagnóstico tardio e o Sergipe teve o pior resultado do país a respeito, com 63,4% dos tumores detectados em estádio 3 ou 4 em 2025.
“Não basta garantir que a mamografia esteja prevista legalmente: é preciso assegurar que ela chegue às mulheres no território e no tempo adequado em que precisam. Quando temos uma cobertura tão baixa e, ao mesmo tempo, uma proporção tão elevada de diagnósticos em estágios avançados, fica evidente a necessidade de enfrentar as desigualdades regionais no acesso ao rastreamento, que é a única ferramenta para o diagnóstico precoce e ao tratamento”, diz Mariana Lorencinho, gerente de Políticas Públicas pelo Cuidado com a Saúde das Mamas no Instituto Natura.
Aumento de diagnósticos em fase avançada
Analisando a série histórica de 2015 a 2025, Sergipe, Paraíba e Alagoas apresentaram as proporções mais preocupantes de diagnósticos tardios na região, atingindo 61,8%, 57,7% e 57,4% dos casos, respectivamente. Em contrapartida, Pernambuco e Rio Grande do Norte apresentaram algumas das menores taxas de diagnóstico tardio do país no ano de 2025, com 34,5% e 35,6%, respectivamente.
Avaliação por Estado
- Sergipe (SE): 61,8% dos diagnósticos foram tardios;
- Paraíba (PB): 57,7% de diagnósticos tardios;
- Alagoas (AL): 57,4% de diagnósticos tardios;
- Ceará (CE): 55,7% de diagnósticos tardios;
- Maranhão (MA): 51,8% dos diagnósticos foram tardios;
- Bahia (BA): 48,8% dos diagnósticos foram tardios;
- Piauí (PI): 48,4% dos diagnósticos foram tardios;
- Pernambuco (PE): 46,8% dos diagnósticos foram tardios;
- Rio Grande do Norte (RN): 40,0% dos diagnósticos foram tardios.
A barreira do tempo para o início do tratamento
Quanto ao tempo médio entre a detecção da doença e o início do tratamento, há graves violações ao prazo máximo de 60 dias determinado por lei. No período de 2015 a 2025, um dos estados com melhores desempenhos do país, o Piauí, registrou média de 95 dias para que as pacientes iniciassem a terapia. Sergipe e Bahia encabeçam os piores desempenhos do país no último ano na agilidade do início do tratamento: 115 dias e 100 dias, respectivamente.
Contexto Nacional e a importância do monitoramento
O levantamento nacional mostra que 51% de todos os casos de câncer de mama registrados entre 2015 e 2025 no Brasil foram diagnosticados em estágios avançados da doença. Além disso, a taxa nacional de cobertura mamográfica para a população-alvo, de 50 a 69 anos, sofreu uma diminuição no último ano, passando de 22,8% em 2024 para apenas 22,1% em 2025.
Neste ano, a análise de diagnósticos e do tempo de tratamento do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama deixou de utilizar a Base RHC (Registro Hospitalar de Câncer), considerada defasada, e passou a utilizar os dados do Painel de Oncologia do Instituto Nacional de Câncer (INCA), mudança de metodologia que revelou um cenário ainda mais desafiador do que o estimado anteriormente.
“Esta atualização representa um avanço importante para o monitoramento do câncer de mama no Brasil. Com dados mais recentes do Painel de Oncologia do INCA, conseguimos compreender com maior precisão a jornada das pacientes, identificar gargalos e desigualdades e produzir evidências que contribuam para políticas públicas mais efetivas”, comenta Dra. Catherine Moura, médica sanitarista, CEO da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) e líder do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer.
Outro dado alarmante recai sobre as mulheres mais jovens, justamente as que estão fora da idade de rastreamento ativo recomendada pelo Ministério da Saúde (50 a 69 anos) — neste ano, a mamografia de rastreio a partir dos 40 anos foi autorizada no SUS, mas somente sob demanda. Segundo o Panorama, 68,3% das pacientes entre 20 e 29 anos recebem o diagnóstico já nos estágios três ou quatro da doença; entre as de 30 e 39 anos, foram 61,9%; e na faixa de 40 a 49 anos, 53,7%. Dentro da faixa etária alvo do exame, 47,6% foram diagnosticadas tardiamente.
O impacto das falhas no rastreamento, assim como no tempo de tratamento, reflete-se no aumento de óbitos. Entre 2015 e 2025, o Brasil registrou 203.785 mortes por câncer de mama, sendo 21.668 apenas em 2025, o maior número registrado na série histórica. No recorte racial, 55,4% dos óbitos em 2025 ocorreram entre mulheres brancas e 43,9% entre mulheres negras.
“É inaceitável que quase metade das mulheres na faixa etária-alvo do rastreamento ainda receba o diagnóstico de câncer de mama em estágios avançados, enquanto o país registra aumento da mortalidade pela doença. Esse resultado reforça a necessidade de qualificar a linha de cuidado, com uma rede capaz de assegurar acesso oportuno, redução de desigualdades, integração entre os serviços e continuidade da assistência desde a identificação de uma suspeita até o tratamento. Tudo isso é fundamental para melhorar os desfechos das mulheres com câncer de mama no Brasil”, afirma Nira Cará, diretora-executiva do Instituto Protea.
O Instituto Protea é uma organização da sociedade civil que atua para reduzir a mortalidade por câncer de mama no Brasil, ampliando o acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento oportuno para mulheres em situação de vulnerabilidade social. Fundado em 2018, o Instituto desenvolve projetos em parceria com hospitais, secretarias de saúde e outros atores da sociedade para fortalecer a linha de cuidado do câncer de mama, enfrentar desigualdades de acesso e contribuir para que as mulheres recebam o cuidado adequado no tempo necessário. Sua atuação inclui iniciativas de diagnóstico precoce, fortalecimento da rede de atenção e custeio do tratamento de mulheres que enfrentam barreiras de acesso no sistema público de saúde.
